
SESC Belenzinho - Janela do aquário - Giudisevo
O que se fotografa? Digo, no momento em que o fotógrafo enquadra um assunto e aperta o disparador, o que é aquilo que a fotografia captura?
Um instante, já ouvi dizer. Um instante recortado do tempo, como uma fatia na película que projeta o filme da vida. Analisar de perto essa fatia acaba sendo um tanto provocante.
Há uma sequência de fatos que mentalmente dividimos em passado (aquilo que aconteceu antes do que acontece agora), presente (aquilo que acontece agora) e futuro (aquilo que vai acontecer imediatamente após agora).
Nestes termos a fotografia sempre será um documento do passado, obviamente. Porém, convido meus queridos escassos leitores a assumirem uma nova postura diante das considerações de presente-passado-futuro comumente aceitas na nossa sociedade.
Concordem que passado e futuro são construções mentais para organização dos acontecimentos de nossas vidas. O registro em nossa memória de algo já feito é chamado passado e já que este passado não cria vida própria e materializa-se separadamente do nosso mundo, existe só e somente em nossa mente.
A mente precisa deste registro como mecanismo essencial para o aprendizado e desenvolvimento saudável do homem. Porém, sua existência é apenas mental, ficando limitado às projeções de nosso cérebro. E se o passado eu é algo que ocorreu, o futuro é ainda mais insubstancial, desprovido até mesmo da aparente certeza como no fato passado.
O futuro não passa de uma suposição a partir dos fatos presentes, associados em uma narrativa para se projetar um novo possível fato denominado futuro. Ora, se o futuro é uma projeção a partir dos fatos presentes, o passado é a matéria prima do presente. Porém, esta matéria prima já foi a projeção de um passado, sendo que este passado foi a projeção de um tempo anterior que também foi a projeção de um momento ainda mais anterior.
Esta sequência é pura e simplesmente existente nos labirintos mentais, como ferramentas utilizadas apenas pelos seres humanos por meio de um código comum (a linguagem) com a finalidade de organizar os fatos do universo.
A partir destas considerações, podemos analisar a consistência permanente do momento presente: o presente é o passado condensado que foi a projeção e um presente resultante da condensação de um passado que foi presente para seu passado anterior, etc…
A fotografia trata do passado e do presente ao mesmo tempo, junto do futuro também, afinal o que temos é apenas este presente e que podemos definitivamente ver, tocar e experimentar sem a necessidade de recorrer à uma experiência puramente mental.
Esta arte evidencia com clareza este fluir contínuo e cíclico do que convencionou-se como “tempo”, sendo que o fato daquela foto jamais será acessado novamente, a não ser apenas pela experiência mental armazenada.